domingo, 29 de novembro de 2009

15 DE NOVEMBRO DE 2009: UM ANO SEM MINHA MÃE!


Crônica publicada no dia 15 de novembro de 2009 no diário Monitor Campista. Tristemente depois de 175 anos de publicação o Monitor Campista paralizou suas impressoras! Assim quis os atuais donos do jornal, os "Diários Associados".



Para mim o dia 15 de novembro não representa a data da proclamação da república, que na verdade aconteceu na calada da madrugada de 16 de novembro. Para mim esta data significa um ano sem minha mãe. Um ano já se passou, no entanto, eu sinto como se tivesse estado com ela ontem. Foi um ano triste, mas sua presença esteve sempre viva, terna e doce.



Tenho plena consciência de que se minha mãe pudesse estar agora aqui entre nós, eu procuraria curtir cada pedaço de nossas vidas, mesmo com os compromissos que me cercam, mas agradeço imensamente a Deus o privilégio a mim concedido, dela ter vivido quase 93 anos entre nós.



Durante toda minha vida sempre admirei sua nobreza, seu pensamento inteiramente lúcido e jovem, sua voz harmoniosa e dicção perfeita, sua inteligência lógica, seu dom artístico com que misturava as cores e fazia surgir belíssimas paisagens nas telas que pintava, e o carisma que ela sempre demonstrou, não só em família como fora dela. Mamãe foi sempre estimada por toda a vizinhança e por todas suas alunas, o que sempre deu muita alegria.




Sempre admirei os cabelos de minha mãe que embranqueceram quase que completamente, mas permaneceram alguns fios escuros, e permaneceram extremamente bonitos até o fim porque, além de tudo, nunca receberam nenhum laivo de pintura. Ainda na velhice ela foi uma bela mulher, elegante, de porte ereto e andar firme, apenas os seus olhos azuis, antes brilhantes, às vezes dava uma aparência de melancolia, natural pela perda de meu pai que se foi 32 anos antes.



A lembrança mais remota que tenho de minha mãe é muito suave. Eu devia ter uns três anos e morávamos na Rua Formosa, bem perto do campo do Goitacaz. Lembro dela com seu cabelo castanho escuro, preso, vestindo um elegante conjunto de saia e paletó, com seus olhos expressivos que me transmitiam grande segurança e amor. Ao sair do Instituto Rui Barbosa, onde eu estudava, a contemplava enquanto ela me levava no colo. Nunca poderei esquecer a primeira vez que tomei consciência de sua presença altiva, ao olhar- nos olhos e eu tão pequeno.



Em minhas noites infantis, pedia a Deus que não a levasse, pois tinha amigos vizinhos, como os irmãos Adail e Adálio, de minha mesma idade, que não tinham mais sua mãe e eram criados por uma tia, Dona Penha. Assustava-me ver esses amigos sem mãe, intuindo ser esta uma dor insuportável. Parecia-me impossível viver sem a presença materna. Isso me dava medo.



Minha mãe era daquelas pessoas cuja presença marcava o lugar em que estava. Não por uma característica forte, mas sim pela tranqüilidade e amizade que transmitia. Nunca vi seu semblante apresentar qualquer aspecto agressivo. Não saberia dizer se éramos parecidos ou diferentes, mas minha alma sempre esteve unida a dela e assim permanece até hoje. Ela partiu, mas trago em minha essência sua natureza, seus pensamentos, e a experiência de um convívio que não mais acontecerá. Estou certo que nossos vizinhos, de todas as épocas, a consideravam como uma “boa samaritana”, pois a todos ajudava em qualquer necessidade. Lembro-me bem que muitas vezes, quando vizinhos tinham problemas de doenças na família, era chamada para ajudar e inclusive aplicar injeções a altas horas da noite.



Hoje, apesar de haver passado tantos anos, tudo isso me vem à mente com detalhes impressionantes, fazendo com que meu coração bata com emoção e traz ao cenário presente, cenas em seus mínimos detalhes que parece que estou vivendo a realidade daquela época.



Minha mãe foi uma mulher muito forte, embora com uma aparência de dependência. Amélia era seu nome, e meu pai sempre brincava cantarolando trechos da musica de Ataulfo Alves e Mário Lago, “Ai que Saudades da Amélia”! Sentia-me protegido por ela. Jamais me faltou. Os anos foram passando e me tornei adulto, fui estudar fora, casei, tive filhos, vieram os compromissos de trabalho, fui residir no exterior onde estive por 30 anos, e as visitas eram nas férias. Como gostaria de ter podido viver mais, muito mais perto de minha mãe e de meu pai.


Uma vez ouvi dizer que as paixões aumentam com a ausência. Não concordo. Elas aparecem, dão sinal de sua existência, e mostram que certas pessoas nunca irão embora. É isto que sinto hoje - uma presença constante, uma saudade eterna, um desejo de regressar, a lembrança dos reencontros e a angústia dos tristes momentos das partidas.



Se tivesse o privilégio de estar diante de Deus, com direito a um pedido, pediria que me concedesse mais alguns momentos com minha mãe e com meu pai. Sinto falta dos gestos não realizados e das palavras não proferidas que explodem em meu coração. Como gostaria de olhar novamente os olhos azuis de minha mãe, de abraçá-la, de beijá-la e de sentir uma vez mais o calor de suas mãos.



A saudade é grande que não cabe no meu peito, mas escorre pelos olhos.