sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

MENSAGEM PARA O MEU IRMÃO WATSON TAVARES




Prezado amigo Watson,



Eu escrevi esta mensagem para você na noite do dia 27 de novembro de 2009, dia de Nossa Senhora das Graças, mãe de Jesus e nossa mãe também, e escrevi pensando em minha mãe Amélia Rosa Fioravanti e na sua mãe Alzira Carvalho de Oliveira, a quem tive o privilégio e a alegria de revê-la há umas semanas atrás, pois não a via há uns 60 anos. Tristemente na terça-feira passada (dia 24 de novembro) eu lhe dei mais um adeus - um definitivo adeus. Sei como é difícil dizer adeus a um pai ou a uma mãe.


Há horas em nossa vida que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio. Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: As perdas do ser humano. Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero.


Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em perda e nela continuamos. Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero, ganhamos os braços do mundo que nos acolhe, nos encanta e nos assusta, nos eleva e nos destrói. E continuamos a perder e seguimos a ganhar. Perdemos primeiro a inocência da infância, depois a confiança absoluta na mão que segura nossa mão, e a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas porque alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair... E ao perdê-las, adquirimos a capacidade de questionar.



Por quê? Perguntamos a todos e de tudo. Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, que irremediavelmente são deixadas para trás. Estamos crescendo - nascer, crescer, amadurecer, envelhecer, e morrer.



Watson, esta deve ter sido uma semana bem triste para você e toda a sua família. É algo doloroso levar um pai ou uma mãe para embarcar para a eternidade. Mas isso me faz pensar, nas etapas que passamos na nossa vida como filhos, e que quando somos pais vemos um reverso da medalha que sem sermos pais raramente percebemos.



Certamente você também deve ter tido essa experiência: quando os Pais descobrem que um filho ou filha está para nascer, traz às suas vidas um brilho de luz, a cada sorriso, a cada palavra, olhar ou suspiro, e inevitavelmente uma cachoeira de lágrimas parece inundar seus olhos de alegria e de paz.



Todos nós fomos crianças um dia, e nos tornamos adolescentes, época em que a busca pela independência fica cada vez mais clara. A nossa vontade de conquistar espaços próprios nos distancia daqueles que sempre nos amará, inclusive muitas vezes parecendo que até nos esquecemos dos pais e de toda a família. E na verdade, muitas vezes sem querer, nos esquecemos de dizer o quanto os amamos.



E não nos damos conta disso. Mas um dia nossos pais, que são os nossos entes mais queridos, se vão. Isso quase sempre acontece quando menos esperamos e vem sem nenhum aviso prévio, parecendo que Deus quer tirar de nós aqueles a quem mais amamos. Em nosso peito fica apenas a dor de um punhal, que a cada "meus pêsames", parece transpassar nossa alma.



Na hora em que nos despedimos de nossos pais, inevitavelmente os nossos pensamentos divulgam para cada gota de sangue que corre em nosso corpo a culpa de nunca termos dito, com mais freqüência e com muito mais carinho, sem temor de parecermos crianças ou fracos: um "eu te amo"; "eu preciso de você", "eu estou e estarei sempre aqui", "eu me preocupo", e como se não bastasse vem à nossa mente uma frase mais forte: "a culpa foi minha".



Nessa hora os nossos sonhos caem por terra, aquela sonhada independência do tempo de adolescente parece perder toda a importância. Sentimos um vazio infinito no coração. Mas o tempo nos dá uma certeza: Quando amamos, nós transmitimos o nosso amor em pequenos atos e gestos, e as palavras não importam mais; quando precisamos de alguém, sentimos sua presença, e as palavras não têm mais sentido; quando nos sentimos só e abandonados, surge uma palavra ou um gesto e descobrimos que nunca estaremos sós.



E a culpa de quem seria? A culpa é unicamente da própria vida que tem inicio, meio e fim. A nossa culpa estaria apenas em amar tanto e sentir tanto ao perder alguém a quem amamos.



Não estamos preparados pára perder um ser querido, mas o tempo é remédio e nele nos conquistamos o consolo, e com ele recordamos os bons momentos. E com um pouco mais de tempo, ao deixar mente e coração se fundirem, transformamos nossos entes queridos em eternos companheiros. Aí nossos sonhos ganham aliados, a nossa independência ganha acompanhantes e a nossa vida conquista anjos. E no fim apenas a saudade fica, mas com uma grande certeza: não importa onde eles estejam, eles estarão sempre conosco, mas temos que andar com fé.



Watson, lembre-se que andar com é saber que cada dia é um recomeço. É saber que temos asas invisíveis e que podemos fazer pedidos para as estrelas, voltando os olhos para o céu. Como você me disse que iria falar para Clara Sofia, sua filha de 3 anos, tenha a certeza que Alzira é uma dessas estrelas que estão cintilando no céu.



Lembre-se também que andar com fé é usar a força e a coragem que habitam dentro de nós, principalmente quando tudo parece acabado. Tudo pode parecer acabado, menos o amor, pois este sempre viverá.



Afinal, o que é o tempo? Não é nada em relação a nossa grande missão. E que missão nós todos temos nesta Terra!



Fique em Paz meu caro amigo!



Alberto R. Fioravanti

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